domingo, 15 de agosto de 2010

Entrevista do Presidente do Belenenses no Jornal RECORD

RECORD – O Belenenses está como esperava encontrá-lo ou foi surpreendido de alguma forma?




JOÃO ALMEIDA – Fui um pouco surpreendido com a dimensão de incumprimento de obrigações do passado. Era sabido que o clube tinha um passivo razoável e que a situação de tesouraria era muito difícil, mas pensámos que as dívidas fiscais e as que resultavam de acordos feitos anteriormente estivessem mais desanuviadas. Ora isso tem-nos pressionado muito, razão pela qual não nos tem sido possível cumprir tudo aquilo que nos propusemos fazer.



R – Falamos do curto prazo?



JA – Claro. Por muito que reduzamos a despesa, por muito que consigamos fazer pequenas reestruturações, é difícil cumprir o que acordamos nesses termos quando somos surpreendidos constantemente por penhoras, execuções e incumprimentos que nos condicionam no dia-a-dia.



R – Este primeiro ano pode ser considerado de transição?



JA – Não é de transição: este ano é decisivo para a salvação do Belenenses e é bom que as pessoas tenham absoluta consciência do que está em causa. Desde a primeira hora que acentuamos a ideia de que é fundamental sabermos se é possível salvar o clube da infeliz situação em que se encontra.



R – Pode não ser possível?



JA – Esta direção propôs-se e está a fazer um trabalho intenso para consegui-lo mas, como dissemos desde o início, não é garantido que tenhamos sucesso. Sabemos que há muito para fazer mas também há circunstâncias que não dependem exclusivamente de nós para inverter o ciclo de declínio em que o clube entrou.



R – Está implícito na proposta apresentada aos sócios que não vão assumir a candidatura à subida. Num clube com a história do Belenenses é uma opção corajosa...



JA – Nós dissemos, e mantemos, que a subida não pode ser vista como uma prioridade do projeto. Recordo que a outra lista concorrente dizia o contrário e os sócios decidiram nas urnas, tendo consciência da importância desta diferença que nos separava, porventura a mais vincada entre nós. Mas isso não nos impede de lutar, no terreno, pela melhor classificação possível. Serve para dizer que não faz sentido abdicar de lutar por esse objetivo. Estamos na Liga Orangina para ganhar todos os jogos em que participamos e conseguirmos a melhor classificação possível.



R – Acredita mesmo que é possível?



JA – Tenho de acreditar mesmo sabendo que existem muitas condicionantes financeiras e que o clube irá continuar a tê-las durante mais algum tempo. O importante é, tão depressa quanto possível, conseguirmos resultados desportivos apesar das limitações de que já falámos. Se isso já for possível este ano, certamente que não renunciaremos a essa hipótese.



R – O desfasamento entre prestígio, estar num escalão secundário e a situação do clube não é preocupante?



JA – É uma situação rara. O Belenenses é o clube mais prestigiado da Liga de Honra e acredito que será, à semelhança do que sucedeu no passado, a grande potência do campeonato, o adversário a bater por todos os outros, o que vai mobilizar mais gente. Se isso nos preocupa? Claro que sim. Mas também nos estimula. Por isso foi transmitido ao grupo de trabalho a importância de nos portarmos, em toda e qualquer circunstância, como clube que tem esse estatuto, assumindo a responsabilidade inerente a quem enverga a camisola do Belenenses.



R – Tem sido complicado fazer esse apelo?



JA – Sim mas também não estamos em condições de recusá-lo. Foi a pensar na situação em que o clube se encontra que, por exemplo, escolhemos uma equipa técnica perfeitamente identificada com esta realidade, da qual três elementos (Rui Gregório, Tuck e Luís Ferreira) jogaram grande parte das suas carreiras no Belenenses, todos com passagens pela II Divisão. Eles sabem o que é vestir esta camisola em situações difíceis mas conjunturais e, pouco tempo depois, estarem em competições europeias ao mais alto nível. Pretendemos acabar com estas oscilações drásticas e estabilizarmos no lugar que nos pertence por direito próprio.



R – A linha que separa o sucesso do fracasso tem sido muito ténue...



JA – É verdade. Infelizmente agora descemos de Divisão mas, de facto, há pouco tempo estivemos numa final da Taça de Portugal e assinámos presença muito digna nas competições europeias, frente ao poderoso Bayern Munique. De resto, ainda agora, quando contratámos o Semmler, que é alemão, verifiquei que ele estava identificado com o Belenenses não só pelo que fizera nessa eliminatória com o finalista vencido da última edição da Champions mas também pela eliminação do Bayer Leverkusen, em 1988/89, vencedor da Taça UEFA da temporada anterior.



R – Que lições tira dessa análise aos passos mais ou menos recentes?



JA – Serve para mostrar que o clube já passou por situações complicadas mas mostrou sempre potencial para sair delas com pujança renovada. A experiência da equipa técnica é essencial para que os jogadores sintam a importância e o significado de jogar no Belenenses num escalão secundário.



R – A era que inaugurou no Belenenses entra em rota de colisão com quase todos os seus antecessores, que preferiram fugir para a frente...



JA – Pois, mas isso não pode voltar a suceder. As dificuldades já estavam à vista desarmada mas, como diz, muitos fizeram de conta que não as viram. Aquilo não foi fugir para a frente, foi assumir responsabilidades que, depois, não podiam ser cumpridas. Tive oportunidade de falar com um jogador que me disse ter sido enganado por toda a gente até agora. Não lhe pagavam mas, no fim, prometiam-lhe tudo, coagindo-o a assinar o acordo que permitia inscrever a equipa. Nunca cumpriam os acordos e foi assim todos os anos.



R – Foram intransigentes nesse capítulo?



JA – Tivemos de ser. Continuando a dar como exemplo esse jogador, disse-lhe que, independentemente do que estava estabelecido no contrato, o que podíamos pagar era aquilo. Que era abaixo. Houve decisões complicadas de tomar. A forma como o Cândido Costa abandonou o Belenenses custou-me bastante mas a saída encontrada dignifica o relacionamento entre dirigentes e jogadores. Nós não podíamos cumprir o contrato e ele percebeu que, por muito que todos quiséssemos, não havia alternativa. Estou grato ao Cândido pela compreensão e pelas palavras posteriores, que relevavam a pena de não podermos trabalhar mais tempo juntos. O Belenenses quis manter vários jogadores que saíram. Mas não pôde.



R – Esse processo de negociação para baixarem os salários ou saírem do clube foi pacífico?



JA – Foi difícil porque também os atletas têm a sua vida organizada. Por isso foi preciso consciencializar os que estavam e os que vieram de que temos um tecto salarial e uma política de vencimentos apertada. Mais vale pôr os pés na terra e concluir que não é possível conciliar as possibilidades do Belenenses e as expetativas dos jogadores.



R – Tem havido compreensão dos jogadores nesse capítulo?



JA – Em absoluto. Quando não existe acordo, não podemos fazer outra coisa: ou interrompemos a relação com os que cá estão ou nem sequer iniciamos com outros que possam vir. Queremos acabar com situações de incumprimento.



R – Qual nível atingem as dívidas a antigos jogadores e treinadores?



JA – É preciso que as pessoas entendam que temos um plantel a trabalhar e outro de ex-jogadores, muito mais caro, e que pesa muitíssimo todos os meses no orçamento. O que é insustentável. No futuro isso não pode voltar a suceder.



R – Como tem sido a reação dos adeptos, sabendo da exigência que caracteriza a massa associativa belenense?



JA – Não queremos nivelar o clube por baixo. Nós queremos, insisto, é pôr os pés na terra, o que é muito diferente. Não desejamos que o Belenenses desça o seu nível competitivo em virtude das condicionantes financeiras; queremos reequilibrar-nos para voltarmos a ter outras ambições. Esta não é uma renúncia à dimensão do clube porque, para isso, não nos tínhamos candidatado. O futuro está desenhado: pôr os pés na terra, assumir responsabilidades e passar um tempo difícil para depois voltarmos a crescer.



R – Está confiante de que isso será possível?



JA – Estou mas a situação é difícil. Tomámos opções e temos de encarar dilemas como aquele que já vivemos este mês, por exemplo.



R – Tão cedo?



JA – Fomos colocados perante situação delicada: pagávamos impostos ou vencimentos. Tal como dissemos na campanha eleitoral, a prioridade é pagar impostos e restantes obrigações com o Estado; em segundo lugar os vencimentos e só depois podemos partir para o resto. Infelizmente, face ao sufoco de tesouraria que temos, ainda não conseguimos passar da primeira fase, que é pagar escrupulosamente o que devemos ao Estado. Melhores tempos virão.



R – É essa a convicção generalizada?



JA – Naturalmente que sim. Mas, como afirmamos desde o início e desde logo com a gratidão adjacente pela confiança que os adeptos depositaram em nós, repito, o sucesso não é garantido mesmo com estas medidas imprescindíveis. Garantimos, ontem, hoje e sempre, todo o empenho e toda a dedicação. Foi isso que prometemos e é isso que temos feito.



R – Como pensa gerir as emoções de um ciclo sem vitórias?



JA – Nunca pedirei aos sócios que se habituem a perder. Eles não gostam disso, eu também não e nunca poderei pedir-lhes que sejam indiferentes à derrota. O que eles têm de perceber, e nisso têm sido muito solidários, é que vivemos um momento chave na vida do clube. Quanto ao resto, todos queremos ganhar e honrar a nossa história. Incluindo as modalidades, porque o Belenenses não é clube apenas para marcar presença, para ser mais um. É clube para ganhar.



R – Alguma vez hesitou antes de entrar nesta corrida?



JA – Claro, seria inconsciente se não o tivesse feito.



R – E depois de ter decidido concorrer?



JA – Bom, depois disso não. Mas antes, quando comecei a pensar no assunto e a falar com pessoas, hesitei. Deitar mãos a esta missão sem refletir sobre ela seria uma irresponsabilidade e a prova de que não estava preparado para assumi-la. Com a dimensão das dificuldades por que passa o Belenenses era impossível alguém fazê-lo sem reflexão e dúvida.



R – Ser o presidente mais novo de sempre no clube é um inconveniente?



JA – Não sei porquê. A história da inexperiência tem sido algumas vezes referenciada mas é uma falsa questão. Tenho um passado de responsabilidade nas mais diversas áreas, incluindo no Belenenses, como elemento da Comissão de Gestão que, naquela altura, assumiu responsabilidades numa fase importante na vida do clube, gerindo um orçamento de 9 milhões com 4 garantidos. Sei perfeitamente a idade que tenho (prestes a completar 34 anos) mas quando me falam no assunto recordo as palavras de um amigo: ter como defeito a idade é ótimo porque passa com o tempo.



R – A sua equipa também é muito jovem...



JA – É verdade mas, curiosamente, esta direção, que é das mais jovens de sempre, é composta pelos números de sócio mais altos. Todos os elementos têm mais de 25 anos de filiação – alguns têm mesmo 50, num grupo que tem antigos dirigentes e seccionistas de outras direções. Somos novos mas vivemos o Belenenses desde sempre e temos um conhecimento profundo do clube.



R – Qual é a origem da sua paixão pelo Belenenses?



JA – Sou sócio desde que nasci e venho de uma família de belenenses. Habituei-me desde muito pequeno a ir aos jogos, ainda com o meu bisavô, velho sócio e adepto que trocou o seu lugar nas Salésias por outro no Restelo. Essa paixão, que também foi vivida pela minha avó e meu pai, perpetuou-se. Aos 3 anos fui para a ginástica e aos 7 joguei nas escolas de futebol, atividade que prossegui até aos 10 anos. Depois disso fiz natação e alguns treinos de andebol. Mais tarde integrei a claque, da qual cheguei a ser diretor, numa fase em que assisti à quase totalidade dos jogos do clube. Também acompanhei a equipa de andebol no ano do último título nacional.



R – São muitas e boas memórias...



JA – Algumas das memórias mais intensas da minha vida têm a ver com o Belenenses. Uma acima de todas: a primeira vez que vi o meu pai chorar (e esse é uma sensação que não poderei repetir, porque faleceu entretanto) foi de alegria, quando vencemos a Taça de Portugal ao Benfica, em 1989. Mais tarde tive a vivência normal do adepto que vinha ao Restelo com assiduidade e depois o sabor de viver o Belenenses à distância porque fui viver para o Norte. Quem me conhece há mais tempo liga-me mais depressa ao clube do que ao partido. Eu nasci do Belenenses e fui sempre feliz assim.



R – Que passado o liga ao futebol?



JA – Joguei como federado no Carcavelos e no Malveira da Serra. No dia em que jogámos agora em Penafiel fazia precisamente 10 anos que tinha vivido, também no banco, o último dia como futebolista, numa partida da Taça de Cascais. A minha ligação posterior ao futebol adveio da vida partidária. Fiz parte da Comissão de Acompanhamento do Euro’2004 na Assembleia da República, vivendo por dentro o processo do que foi esse grande projeto nacional, desde a construção dos estádios, ao que mudou no paradigma do futebol português com essa organização, passando pelo contacto com os vários dirigentes dos clubes anfitriões.



R – Tem contactos belenenses na vida partidária?



JA – Na AR, mesmo em frente à bancada de que faço parte, tenho o meu amigo António Filipe (PCP) que é um grande belenense. Vivemos em lados opostos mas sofremos pelo clube de igual maneira. E no grupo parlamentar do governo também vejo a Idália Moniz, outra sofredora como nós. O desporto tem esse condão de estabelecer pontes entre partidos que defendem ideias diferentes.



R – E o que se passa a esse nível na direção do Belenenses?



JA – Creio que tem gente de todos os partidos.



R – Que relação mantém com dirigentes de outras direções ou com elementos da lista concorrente?



JA – Uma relação normal. Sou amigo do João Gonçalves, do Jaime Monteiro, enfim, todos grandes belenenses. Mesmo com elementos da direção anterior, apesar das divergências que existem entre nós, a relação não se degradou ao ponto de haver vários vice-presidentes que se mostraram disponíveis para prestar esclarecimentos. O próprio antigo presidente, Viana de Carvalho, telefonou-me a desejar felicidades. É importante que todos entendam que não estamos aqui para ajustar contas mas para ajudar a salvar o Belenenses.



R – Que política vai ser seguida em relação às modalidades?



JA – Temos na nossa direção gente que sofre nos pavilhões todos os fins-de-semana. O problema é que, infelizmente, o clube não pode contribuir, razão pela qual só teremos modalidades que garantam as suas próprias fontes de financiamento. Manteremos o que diz respeito à formação, enquanto nos for possível, e esperamos conseguir o máximo a esse nível. No resto, daremos a cara por diretores, seccionistas, treinadores e jogadores, nas vitórias e nas derrotas. Tudo o que pudermos fazer em termos de empenhamento pessoal, faremos. Esta direção vive muito intensamente o clube mas, de momento, não pode ajudar do ponto de vista financeiro. E mais vale dizê-lo claramente antes do início das épocas. Foi isso que fizemos a todas elas.



R – Que plano tem para o complexo das piscinas?



JA – Para que as piscinas tenham viabilidade é fundamental encontrar um parceiro. No mau estado de conservação infraestrutural em que se encontram e com o nível de custos que têm neste momento, o Belenenses não tem condições para alavancar o investimento. As piscinas têm um potencial enorme, simplesmente não estamos em condições de aproveitá-lo. Restam duas hipóteses: ou encontramos parceiro, e estamos convencidos de que o investimento será vantajoso para ambas as partes, ou não há condições para o suportarmos sozinhos e não vamos assumir essa degradação – abdicar do complexo é uma hipótese a considerar. Este clube só pode prestar serviços de qualidade e não estaremos dispostos a fazê-lo sem condições. Depois de terem desempenhado um papel importante no clube, as piscinas são deficitárias.



R – Tem prevista alguma mudança na estrutura da SAD?



JA – Para que o investimento seja atrativo temos de conseguir equilibrá-la. Com uma avaliação tão negativa, agora seria a pior altura para procurar um investidor. O ideal seria equilibrar a situação para, depois sim, encontrar alguém em condições mais favoráveis para a SAD e para o clube. A questão é saber se isso é possível. E o que determina essa viabilidade? A negociação em curso do incumprimento que vem de trás e de todo o passivo.



R – Assumir essa mudança não faz parte dos seus horizontes?



JA – Repare: podemos encontrar parceiro a curto ou a médio/longo prazo. O problema é que a situação da SAD é crítica do ponto de vista financeiro há vários exercícios. Ora isto não pode continuar assim, sob risco de consequências drásticas para nós. Por isso, ou encontramos um parceiro minoritário, com participação simbólica mas que alavanque essa possibilidade, ou temos acesso a um parceiro de referência com participação mais substantiva, que só poderá surgir noutro contexto que não o atual

1 comentários:

CFB Resultados disse...

Pelo menos dis as verdades ;D

Abraço do Blue Box !!!

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